10 janeiro 2007

Respeitar a dor vivendo o luto. Dra Giselle Fachetti


Com o exercício da obstetrícia há mais de vinte anos tenho trabalhado em um ambiente de muita expectativa e alegria. Ontem mesmo, acompanhei a chegada da Maryanna e da Giovana, dois partos normais, de mães destemidas e entusiasmadas, em um só dia, uma festa!

Em função do fato de conviver diariamente com o encanto dos nascimentos tenho mais dificuldade para lidar com as situações de sofrimento e frustração em relação às minhas pacientes, as quais tenho como amigas. Entretanto, elas (e eles) têm me ensinado muito neste aspecto.

Com alguma freqüência me pego tentando ocultar uma lágrima furtiva que teima em denunciar meus sentimentos diante das vítimas de abortamento.

Já a perda fetal, felizmente rara nos dias atuais, é uma verdadeira implosão silenciosa em meu sustentáculo emocional. Nesta fase o concepto já se move, chuta, soluça. Ele já construiu fortes conexões afetivas com os pais, com a família e até mesmo com o obstetra.

E nós médicos, portadores incorrigíveis de um orgulho delirante, nos sentimos totalmente responsáveis pelo sucesso, ou não, da gravidez. Sentimos o óbito fetal como o espelho cristalino de nossos limites como profissionais e seres humanos, falíveis que somos. Deparamo-nos, assim, com nossa insignificância diante do destino, do inexorável.

Uma vez constatado o óbito fetal processamos nossa necessidade emocional com a seguinte cronologia. O primeiro questionamento é o porque do acontecimento. Existe, então, uma busca pela causa, pela etiologia.

Precisamos de uma síndrome, um nome, uma definição. Não que isso mude os fatos, mas retira a sensação de culpa dos ombros dos envolvidos. É uma procura para aplacar, na realidade, o vício do sentimento de culpa cultivado milenarmente pelas sociedades de raízes judaico-cristãs.

O próximo desafio é lidar com o parto de um feto morto, evento particularmente penoso, não só da perspectiva física quanto da moral, pois é um trabalho de parto que não se conclui com o esperado grito da vida, mas com um silêncio ruidoso. Silêncio, esse, expressado como um lamento dissimulado de toda a equipe presente no centro cirúrgico, reflexo da decepção mórbida que ocupa o ambiente.
Com o objetivo de tentar amenizar o sofrimento da perda, algumas instituições, equivocadamente, impedem que os pais vejam o corpo inerte de seu filho. Conduta que é fruto da fantasia de que se negarmos a dor ela não existirá.

Com meus pacientes aprendi a importância desses momentos críticos: o parto e o contato com o filho morto. O primeiro é a resignação entendida e vivida de forma extrema. O segundo é a base consciente da elaboração do luto.

Lembro-me de um pai que após assistir, entusiasmado, o parto de seus dois primeiros filhos saudáveis, fez questão de embalar longamente o caçula natimorto. Acidente de cordão, sem culpados e sem heróis. O destino foi respeitado, a despedida elaborada.
Essa oportunidade de reverenciar, embalar e chorar a ausência física, daquele que era ansiosamente esperado, proporciona condições para a construção de laços energéticos salutares entre o espírito recém desencarnado e sua família.

Assim esses laços incluem e libertam, dando ao falecido seu lugar de direito como membro da família que efetivamente é. E, além disso, permitem que ele dela naturalmente se afaste, para que percorra seu novo caminho como ser imortal. O impulso para o percurso dessa outra etapa é aquele amor que se materializou à partir de energias concentradas especificamente com a constatação e evolução da gravidez frustrada.


É fundamental que saibamos que os irmãos do falecido não só percebem a perda ocorrida, como a sentem de forma tão intensa ou mais que os pais. Freqüentemente os adultos subestimam a carga emocional que pesa sobre as crianças da família, isso por que eles não expressam o sofrimento de forma convencional.

Os pequeninos desconhecem o que sentem e usam mecanismos de defesa inconscientes para lidar com tamanho desconforto. As conseqüências podem ser funestas, distúrbios emocionais os mais variados, vividos ainda na infância ou que se apresentam já na maturidade.

O ideal é que estimulemos as crianças da família em luto a exprimirem livremente os estranhos sentimentos que as abatem. Devem chorar, de forma literal ou não, a perda inesperada sob o conforto e a segurança do colo paternal.

Homem, mulher, criança, avós e tios, até o médico, podem chorar. Não é fraqueza, é a força do amor à vida revelada em gotas de dor. É a força da autenticidade, de assumirmos nossas reais emoções. O pranto é fruto da saudade daquele serzinho quase desconhecido e não necessariamente representa revolta, ou culpa ou mesmo desencanto.

A reverência do luto é uma experiência de comunhão familiar que ajuda no desprendimento do recém-desencarnado. É a demonstração de um amor que não será sepultado junto ao cadáver, mas que acompanhará o espírito eterno em seu longo trânsito evolutivo.

A nós médicos, que assistimos as famílias durante estes momentos marcantes, resta o aprendizado salutar da construção do amor desprendido e da humildade verdadeira.

Giselle Fachetti Machado.

3 comentários:

Anônimo disse...

muito linda sua materia, deve ser duro viver,um momento desse cheio de dor.
sem se envolver emocionalmente.
um grande beijo e muita luz para voce.

Giselle Fachetti Machado disse...

Caro amigo ou amiga.

Não existe contato entre médico e paciente sem algum grau de envolvimento emocional. Aprendemos, na prática, a reduzir a extensão desse envolvimento. Tentamos poupar nossa família e nosso tempo de lazer da tristesa que nos abate quando enfrentamos os casos mais difíceis. A alegria da cura, dos nascimentos, do sucesso é que nos consola nos momentos de reflexão sobre a dor.
A maior força, entretanto, vem da fé em Deus e certeza que o acaso não existe.

Giselle

Débora Theiss disse...

Olá Dra. Eu passei por isso á quase 1 ano atráz. Meu filho tão desejado e amado morreu dentro de mim com 36 semanas de gestação,sem nenhuma causa definida até hj, o que me revolta as veses, poréwm sou espírita e acredito que o que vivemos hj é fruto do que plantamos no passado, e com isso tento passar por tudo sem revolta, apenas sentindo a dor que qualquer mãe iria sentir no meu lugar.
Nãoi tive a sorte de ser atendida por proficionais como vc que se realmente se importam com a dor alheia, fui tratada com muita frieza. E o que precisava era do mínimo de compaixão.
Parabéns ... com certeza vc esta plantando sementes de Amor e seud frutos serão lindos.
Att
Débora Theiss