13 junho 2007

Aborto - O outro lado da moeda.


A doutrina espírita e seus adeptos deflagraram uma campanha a favor da vida em todo o mundo liderada pela associação médico espírita e não há dúvida alguma de que esse é um caminho acertado a ser seguido.
Mas o que eu gostaria de colocar nessa oportunidade diz respeito a uma questão simples e direta. O que faria Jesus se estivesse encarnado hoje, em relação a essa questão?
Sem pretender ser profeta ou querer ter procuração para falar em nome Dele, mas somente imaginemos o mestre entre nós e facilmente veríamos que além de assumir essa campanha com toda a força, faria mais que isso. Ele estaria voltado com todo o seu amor para as mães, pais e aborteiros, envolvidos no doloroso processo de aborto.
Coloco aqui o termo aborteiro, não de forma pejorativa, mas porque envolve classes variadas de profissionais, dentre médicos, enfermeiros, parteiros, charlatões e outros.
E pergunto. Onde estão os centros espíritas que tratam dessas pessoas? Aonde os hospitais espíritas, os movimentos organizados que tratam com dignidade e respeito essas pessoas? Porque não me consta que Jesus, apesar de combater a prostituição, exortando à retidão de caráter, ao amor santificado, tenha condenado alguma prostituta ou algum homem adúltero.
O que vemos na prática médica e também nos centros espíritas é que as mulheres que praticaram o aborto carregam esse fardo a sete chaves como se fosse a maior de todas as vergonhas. Homens então nem se fala. Alguém já ouviu algum homem falar sobre isso: - Minha namorada estava grávida e eu dei dinheiro a ela para abortar, ou a levei a uma clínica...??? Eu particularmente nunca ouvi.
Que fique bem claro que nossa posição é absolutamente contra o aborto. Sem restrições em nenhum caso. Porém, não podemos ser contra quem pensa diferente, e muito menos contra quem por qualquer motivo tenha praticado o aborto. Temos de abrir as portas das casas espíritas, dos consultórios médicos, do coração, para ouvir essas pessoas. Dividir com elas esse fardo absurdo que faz com que mulheres que tenham praticado aborto, tenham uma probabilidade nove vezes maior de suicidar.
Quais os motivos que levam uma mulher a praticar o aborto? Que pensamentos sombrios, que influência espiritual, que situação financeira, emocional? Como julgar? Como avaliar isso? Melhor seria que todos seguíssemos os ensinamentos de Jesus e caminhássemos diretamente para a luz, mas a vida não é assim, somos falhos, fracos e tíbios em nossa evolução espiritual.
Se Jesus estivesse encarnado entre nós, será que ele preferiria a tribuna, o púlpito para dissertar longamente sobre o aborto, discutir sobre o sistema de saúde, sobre convênios... ou estaria trabalhando junto aos sofredores, prevenindo o aborto ou auxiliando quem o praticou?
É obvio que toda discussão sobre o assunto é interessante, agrega valor, mas e o lado cristão da moeda? Nosso dever como cristão é ser a favor da vida, mas acima de tudo é cuidar da vida desses que dividem conosco o palco de provações e alegrias. Restringir nossa atuação a combater o aborto me parece pouco. Enquanto a implantação do reino de Deus no coração das pessoas não se faz, temos de estender nossos pensamentos, atitudes e boa vontade ao atendimento holístico e amoroso dessas pessoas.
Na Comunidade Espírita Ramatís, aonde trabalhamos, há cinco anos participamos de um trabalho mediúnico que ajuda no preparo de crianças que irão reencarnar. É um trabalho feito com desdobramento consciente. Na medida em que fomos aprofundando o estudo começamos a entender que assistíamos a um Hospital extremamente bem preparado para acolher e tratar espíritos desencarnados em situações as mais variadas, e prepará-los para uma nova chance.
Esse trabalho foi denominado pela espiritualidade de Projeto Esperança e Luz. Dentro do Hospital há uma ala que atende exclusivamente espíritos que foram abortados. A descrição dos médiuns videntes deixa claro que o assunto aborto merece o mais cuidadoso carinho e observação, pois o que ocorre com o corpo astral (perispírito) desses espíritos é algo indescritível, e que necessita de muitos cuidados para sua recuperação. Fato interessante é que um percentual importante desses espíritos não conseguiria sobreviver, pois tem na gestação uma oportunidade de reparar as lesões causadas por abusos anteriores, e usam o corpo físico em formação para drenagem dessas energias, tornando-os incompatíveis com a vida, mas infelizmente a mãe e o pai acabam se comprometendo com suas consciências interrompendo a gestação mais cedo que o programado.
Vemos nesse trabalho que um dos fatores que mais prejudica o tratamento é a ligação energética que se mantém entre pais e espírito abortado. Essa ligação nasce na culpa e no remorso dos pais, e muitas vezes é alimentada pelo ódio e pela mágoa do reencarnante. Uma vez assistidos no hospital, muitos desses espíritos são colocados em redomas, como se fossem incubadoras que literalmente os protegem dos eflúvios psíquicos dos pais. Em várias ocasiões o tratamento é feito envolvendo-se os pais, para que libertem os filhos, que os deixem seguir sua vida na espiritualidade, até uma nova chance de volta.
Esse trabalho de conscientização dos pais deve ser feito de forma consciente no nosso plano físico. O ideal seria evitar todos os casos de aborto, mas como no momento isso está longe do nosso alcance, é necessário que saibamos lidar com essas situações, abrindo espaços terapêuticos de cura nesse sentido, seja nos consultórios, postos de saúde, e principalmente nas casas espíritas. Fazer com que os pais entendam a continuação da vida e a urgente necessidade de se desligar energeticamente do problema, sublimando-o pelo amor e não pela dor. Muitas pessoas passam a vida inteira se martirizando inconscientemente, como se a dor fosse o único caminho para resgatar, para quitar o débito contraído e simplesmente não se permitem ser felizes porque um dia praticaram uma atitude infeliz, e carregam como um fardo insuportável e solitário, que não pode ser dividido com ninguém, com medo de ser taxado de assassino ou coisa pior.
É lógico que alguns são tão insensíveis que praticam o aborto de forma repetida, e não estão nenhum pouco preocupados com nada que se relacione a palavra responsabilidade. São crianças espirituais que ainda não entenderam a maravilhosa engrenagem da vida, que atua com amorosidade absoluta em nossa evolução. A esses não nos resta outra coisa senão esperar, e exemplificar o nosso amor e crença na vida. Quando abordo o assunto acima, o faço em relação aqueles que constituem a maioria, os que realizaram o aborto num momento infeliz e passam a vida sem encarar de frente o problema e resolvê-lo.
“Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” “Mulher, onde estão os que te acusaram? Ninguém te condenou?” - Ela respondeu: “Não, Senhor.” Disse-lhe Jesus: “Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar.” (S. JOÃO, cap. VIII, vv. 3 a 11.)
A engrenagem mais eficiente que o espiritismo nos dá é o amor. Universal, sem preconceitos, sem julgamentos. Amor responsável que trabalha e edifica. Usemos essa ferramenta em nosso favor e em benefício do próximo, sem confundir ser a favor da vida com ser contra pessoas que com suas atitudes que demosntrem o contrário.

8 comentários:

Alice Branco disse...

Gostei muito deste artigo. Pela primeira vez, realmente, alguém escreve pensando "no outro lado da questão'. Particularmente, eu mesma na juventude passei por 2 abortos, em situações de vida diferentes - hoje tenho plena certeza de que nada os justificaria, pelo menos da minha cota parte de responsabilidade mas, na verdade, não tive possibilidades reais de impedí-los. quero contar um pouco disto:
1. aos 17 anos engravidei sem querer / meu namorado, médico recém formado, ficou atônito. Não tinhamos condições reais na nossa relação para assumir esta criança, e optamos pelo aborto. Eu, acreditando que estava decidindo com maturidade o que fazer (sem entender que estava sendo empurrada pelas circunstâncias) e ele, acreditando também que estava decidindo o melhor no momento. Bom, nosso casamento acabou 3 anos depois - eu me desvinculei da relação, sem maiores explicações, e Luis sempre acreditou que havia sido por conta do aborto que ele, agora ele entendia melhor, tinha me incentivado a fazer (esta culpa dele veio por conta da sua maioridade, 24 anos, em comparação com a minha minoridade, 17). Bom, esta criança, me acompanhou durante anos, um menino creio eu, que hoje já teria 30 anos.
2. 7 anos depois, numa situação de abandono, desespero e depressão, fiz outro aborto - em hospital, com anestesia geral - e, no meio do procedimento, acordei gritando, pedindo que não o tirassem... mas já era tarde. A médica já tinha feito a raspagem parcialmente. Não foi possível mantê-lo em mim. Bom, era outro menino, eu sempre acreditei. durante muitos anos achei que fossem o mesmo espirito em duas encarnações consecutivas, comigo como mãe.
3. então, na minha vida, tive 5 filhos - dois que não vingaram, Tiago e André, os que foram abortados, e ainda, Rebeca, Daniel e Miguel. Com Tiago e André, que se fossem vivos hoje seriam homens feitos penso que já estou reconciliada - e também já me foi dito, por entidades espirituais, que o caminho do aborto tinha sido escolhido por eles. Na maturidade, hoje, entendo que muitas vezes nós pensamos que decidimos (que usamos nosso livre-arbítrio) mas, na verdade, estamos sendo levados por forças maiores, do astral, executando dizeres alheios a nós mas necessários para aqueles que nos acompanham, encarnados ou não. Se fosse minha decisão consciente e assumida, não teria feito nenhum dos abortos, tenho plena certeza. Mas, a consciência disto só veio anos depois.
Alice

Luciana disse...

Não acreditei quando li este texto, que me emocionou, já que, mesmo frequentando um centro espírita, não tenho coragem de conversar a respeito, a vergonha é imensa. Como reflexo, me isolei e diminuí minha auto-estima. Este tema nunca é discutido como o foi neste texto. Por favor, continue a escrever sobre o tema. Agradeço a Deus pela orientação.

Anônimo disse...

Estava realmente precisando destas palavras de consolo... Li ainda a pouco em outro site espirita que a mulher q aborta é uma FRACASSADA... me senti muito mal pq ja o pratiquei qdo tinha 20 anos (hoje tenho 30), não queria decepcionar meus pais, não sabia como iria cria-lo... sei q fui imatura e não quis enfrentar o problema (ou o q achava ser problema). Nunca falei a respeito... e hoje sei que a criança que viria me seria companheira e não me sentiria tão só. Conheço a Doutrina desde pequena minha mãe levava me ao Centro Espirita, mas confesso que somente agora posso absorver/entender e dar a devida importancia a Doutrina. Espero q me seja dada mais uma oportunidade de poder te-lo comigo... Hoje trabalho numa casa espirita na Enfermaria e realizo Visitas fraternas nos lares de pessoas doentes... e trabalhar em beneficio do proximo me deixa FELIZ.
Obrigada pelos esclarecimentos e pelas palavras. Vc me fez um bem enorme...
Ana

Anônimo disse...

No momento que estava mais necessitada de ajuda encontrei esse site!
Estou com muito medo!
Na minha adolecencia fiz 2 abortos o que me deixou com enorme peso na conciencia, as vezes me pego pensando em como eles seriam hoje!
Quando vejo um bebe na rua o sentimento de culpa aumenta mais ainda!
E o pior nao e isso!
Quero muito engravidar e dar oportunidade a estesa espiritos que rejeitei, mas tenho muito medo!
Me apavora quando penso que essa criança possa nascer com algum problema ou coisa assim!
Nao me perdoaria nunca!
Por favor me ajudem, pois estou precisando muito!
Obrigada!

Anônimo disse...

Parabens pelo site. PAssei para uma visita e voltarei, convido a visitar o meu, http://rcdoutrinadaverdade.blogspot.com
Feliz ano novo a todos
Ely

Patricia disse...

Nossa mto bom estava precisando de umas palavras assim , a fiz isso a 1 ano e a 1 ano me condeno por isso desde então minha vida virou um mar de magoas sem animo pra nada mais dps de 1 ano de sofrimento estou levantado a cabeça e vou conseguir superar, o meu 1º passo foi desabafar com alguém, de agora em diante vai ser só pensamentos bons esse texto me ajudou tbm axava q tinha ser ser infeliz pro resto da vida por ter feito um aborto q eu merecia ser castigada e eu mesmo q estava me castigando não só a mim e sim meu namorado tbm fazendo-o infeliz hj ele terminou comigo acho q não aguentava mais tanta infellicidade mais vou mudar me apegar a deus q vai me trazer só coisas boas!!!
Obgdo
mto bom o texto me ajudou e vai ajudar outras mulheres tbm !!

michele tavares disse...

Gostei muito deste artigo!eu tenho 27 anos e fiz um aborto qdo tinha 19, estava no meu segundo ano de faculdade, fiquei muito assustada com medo da decepçao dos meus pais, o pai da criança quis de imediato q isso acontecesse...sei que nada justifica o q fiz, se passaram oito anos e sempre fico pensando no que fiz como fui covarde!e hj estou de casamento marcado e queremos muito um filho mas tenho medo de Deus não me dar esta oportunidade novamente de ser mamae, ou mesmo de ter um filho com problemas!penso demais no espirito abortado se ele me odeia!e muito ruim, é uma sensaçao de fracasso e covardia!Queria saber como posso me livrar desta culpa e ser perdoada por este espirito!

Anônimo disse...

O desespero e a dor de quem pratica esse ato são indescritíveis. Origada por alguém entender essa dor!!