01 julho 2010

HPV - o que um olhar espiritualizado pode nos ensinar? Dra Giselle Fachetti

Uma pessoa querida perguntou-me se havia escrito algum artigo sobre HPV, sim, vários, mas todos sob a ótica estritamente cientifica.

Tenho estudado o assunto desde minha graduação quando fiz um curso de especialização em Colposcopia na UFMG em 1985. Faz tempo... Coincidentemente no ano em que Misels conseguiu estabelecer a correlação entre HPV e câncer de colo uterino.

Naquela época já sabíamos que o câncer de colo uterino era uma doença de transmissão sexual, mas o agente microbiológico ainda não havia sido identificado. Seguiu-se uma verdadeira caça ao HPV.

A ciência caminha progressivamente e muitas verdades se mostram falsas com o desenvolver do conhecimento. Apesar de sabermos disso, muito exagero foi cometido então, tanto em termos de diagnósticos quanto em termos de tratamentos.

Hoje os conhecimentos estão mais sedimentados e podemos traçar linhas gerais que tranqüilizarão as mulheres que enfrentam um diagnóstico como esse. Como as fontes virtuais de conhecimento costumam ser apelativas, pois assim atraem mais olhares, procuraremos ser realistas.

Analisaremos, também, o aprendizado sobre nossa realidade íntima que uma experiência relacionada a uma doença sexualmente transmissível nos proporciona.

O primeiro dado que devemos tem em mente é que a infecção por HPV é altamente prevalente, as pesquisas com técnicas de pesquisa de DNA viral demonstram que 80% da população que teve pelo menos uma relação sexual em sua vida, já teve contato com o HPV.

Desse grande número de indivíduos uma pequena porcentagem vai desenvolver lesão pré-cancerígena. Frisando, lesão pré-cancerígena e não câncer. Câncer é ainda mais raro. No primeiro caso cerca de 100 em cada 100.000 mulheres, no segundo, cerca de 18 em cada 100.000 mulheres (Goiânia, 2007 – estatísticas variam conforme o local).

As lesões pré-cancerígenas são detectáveis pelo teste de Papanicolaou e, tratáveis com diversas técnicas modernas que praticamente não deixam seqüela. Tais terapias não costumam interferir na fertilidade futura.

Apenas casos em que detectamos o câncer propriamente dito, lesão que invade o tecido subjacente ao epitélio do colo do útero, é que precisam de tratamentos mutilantes como a retirada do útero. Ainda assim, temos índices de cura bastante altos em estádios iniciais da doença.

As lesões pré-cancerígenas levam entre 5 e 15 anos para se transformarem em câncer invasor. Por isso teremos entre 5 e 15 oportunidades para detectarmos lesões ainda benignas ao analisamos os exames anuais de Papanicolaou. É um excelente grau de segurança.

O grande problema que enfrentamos é tornarmos o exame acessível a todas e, a cada uma, das mulheres do nosso planeta.

Tendo o diagnóstico de uma lesão pré-cancerígena do colo uterino sabemos que essa pessoa teve contato com o HPV, vírus de transmissão sexual, de alta prevalência. Fato esse que ocorreu também com 80% das demais mulheres.

Sabemos, ainda, que essa paciente sofreu, ainda com outros fatores os quais se somaram ao HPV para possibilitar a indução de uma mutação gênica em seu colo do útero. Ela certamente teve uma falha imunológica provavelmente associada ao fato de ou portar um vírus mais agressivo, ou fumar, ou estar mal alimentada. O stress é outro fator que igualmente sabota nossa imunidade.

Existe uma grande preocupação em relação aos parceiros sexuais, já que a paciente se vê diante de uma doença sexualmente transmissível e, imagina ser possível detectar quando foi infectada. Não é.

O primeiro ponto a ser considerado é que sim, é uma doença de transmissão sexual, mas que pode ficar latente, sem expressão clínica por vários anos, conforme a imunidade da paciente. Assim não significa, sempre, infidelidade.

Não julgueis, a fim de não serdes julgados;

- porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros;

empregar-se-á convosco a mesma medida

de que voz tenhais servido para com os outros.

Mateus, 7; 1 e 2.

Aí está um aprendizado ético e moral que as mulheres se deparam logo de cara. Não devem julgar mal e precipitadamente seu parceiro. Inicialmente, pergunto a elas se sabiam que seu parceiro havia tido outras parceiras sexuais em seu passado.

Elas invariavelmente sabiam, e algumas, até se orgulhavam da experiência prévia do amado. Não cogitavam que quanto mais experiente o parceiro maior a população de vírus que ele efetivamente entrou em contato durante seus relacionamentos anteriores.

No homem o vírus contamina pele, tecido maduro, pouco suscetível a transformação neoplásica. Eles, portanto, tem risco bem menor de desenvolverem lesões pré-cancerígenas do que as suas mulheres.

Livro dos Espíritos, questão 821

As funções às quais a mulher é destinada pela natureza

têm importância tão grande quanto as do homem?

– Sim, e até maiores;

é ela quem dá ao homem as primeiras noções da vida.

Disso decorre outra oportunidade de aprendizado. Quando tomam conhecimento desse fato logo dizem que é mais uma das inúmeras vantagens masculinas.

Faço, então, questão de ressaltar que apesar de nós mulheres termos mais freqüentemente pequenos problemas de saúde, nós temos uma expectativa de vida bem maior que a deles... Será que realmente estamos em desvantagem?

Em seguida vem a dúvida relativa à re-infecção. É claro que se o relacionamento não for monogâmico o casal corre sérios riscos de saúde. E o HIV é muito mais grave que o HPV. Qualquer suspeita, ou possibilidade de que existam mais de duas pessoas envolvidas no relacionamento, implica em obrigação do uso da camisinha.

Caso seja um relacionamento monogâmico, em algum momento o casal optará por aumentar a família e, aí, não poderá manter o uso da camisinha.

Não existe necessidade de maiores preocupações relativas ao HPV quando o casal é monogâmico. Uma vez que nos contaminemos com um tipo de HPV habitualmente nos tornamos imune a ele. E não re-infectaremos nosso parceiro, assim como nem ele nos re-infectará. Não ser trata de infecção em ping-pong!

A imunidade obtida naturalmente é menos eficiente que a induzida pela vacina, porém, o suficiente para que o casal viva sua intimidade com naturalidade.

Finalmente, nos deparamos com um ponto crucial que faço questão de ressaltar junto ás minhas pacientes: o preconceito. Como sofremos por estarmos portando um vírus de transmissão sexual!

Caso tivéssemos uma doença bem mais grave, como, por exemplo, um abscesso na faringe, na amígdala, não nos sentiríamos tão culpados e tão impuros.

Julgamos que doenças sexualmente transmissíveis só acometem pessoas promiscuas e quando acontece conosco nos sentimos promíscuos, daí tanto sofrimento.

O erro está no preconceito e nas culpas. Essas foram sistematicamente introjetadas na mente de várias gerações pelo enfoque, antigo e equivocado, que marcava a sexualidade humana como originariamente pecaminosa.

Todas as atividades humanas envolvem riscos. Ao atravessarmos uma rua corremos o risco de morremos atropeladas. Ao amarmos nosso marido podemos construir uma família, e poderemos, simultaneamente, desenvolvermos alguns tipos de doenças.

Se, inversamente, optamos por não exercer a maternidade, teremos diante de nós outros riscos, como, por exemplo, a maior chance de desenvolvermos miomas uterinos...

Quaisquer opções que façamos em nossa existência terrena envolverão riscos. Temos, sim, que conhecê-los e gerenciá-los com inteligência e tranqüilidade.

A mulher que inicia sua vida sexual deve saber que se desenvolverá profundamente como mulher, mãe, esposa, como ser humano.

Deverá saber que ao mesmo tempo assume responsabilidades: Deve cuidar de sua saúde. Deve passar a realizar exame de Papanicolaou anualmente. Deve planejar sua família conforme sua realidade e, com orientação profissional. Deve, ainda, escolher seus parceiros com critério.

Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração,

de toda a tua alma e de todo o teu espírito;

este o maior e o primeiro mandamento.

E aqui tendes o segundo, semelhante a esse:

Amarás o teu próximo, como a ti mesmo.

- Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos."

Mateus, 22; 34-40

Amar-se antes de amar o próximo. Foi assim que Jesus nos ensinou, pois, não saberemos amar ao próximo se primeiramente não soubermos amarmos a nós mesmos.

Giselle Fachetti Machado

Um comentário:

Ane Ben disse...

Obrigada por esse sábio esclarecimento Giselle. Foi importante pra mim "ouvir" isso, com toda essa clareza e carinho.
Que os bons espíritos continuem a iluminar teu caminho sempre.
O bem também se faz com palavras.

Com carinho...
Ane